“A principal e mais básica necessidade espiritual do povo russo é a necessidade de sofrimento, um sofrimento incessante e insaciável, em todos os lugares e em tudo. O povo russo foi impregnado com essa necessidade de sofrer desde tempos imemoriais. Uma corrente de martírio percorre toda a sua história, e ela não flui apenas de desgraças e desastres externos, mas brota do próprio coração das pessoas. Há sempre um elemento de sofrimento mesmo na felicidade do povo russo, e sem ele, a sua felicidade é incompleta.”
– Fiódor Dostoiévski
Faz sol em Moscou e os dez graus negativos na Praça Vermelha anunciam que o inverno está chegando. A data é emblemática: 12/12/12. Algumas pessoas acreditam que o fim do mundo entrou em contagem regressiva.
Há um ano a Rússia enfrenta os maiores protestos populares desde a queda da União Soviética – e por um bom motivo: o país acaba de sobreviver a duas eleições manchadas pela fraude1 “Protesters Defy Troops on Moscow Streets”. Financial Times, 6 de dezembro de 2011.. Em uma delas, o Rússia Unida, partido governista, conquistou a maioria dos assentos no parlamento2 “Russia’s Dubious Vote”. The Wall Street Journal, 28 de dezembro de 2011.. Na outra, Vladimir Putin foi anunciado vencedor da sua terceira eleição presidencial3 “After Election, Putin Faces Challenges to Legitimacy”. The New York Times. 5 de março de 2012..
Nos últimos meses, dezenas de milhares de pessoas protestaram nas ruas da capital do país, sob a liderança de um novo rosto na política russa – um certo Alexei Navalny – contra a ausência de legitimidade do governo constituído4 “Remembering the winter of protests”. Meduza. 4 de fevereiro de 2022..

Não são tempos comuns. É uma quarta-feira e o presidente da Rússia se dirige ao Salão de São Jorge do Grande Palácio do Kremlin para oferecer o discurso mais importante do ano: o seu primeiro discurso sobre o estado da nação desde a volta à presidência5 “Address to the Federal Assembly”. Kremlin. 12 de dezembro de 2012.:
“Gostaria que todos nós entendêssemos claramente que os próximos anos serão decisivos.”
“O desenvolvimento mundial está se tornando cada vez mais desigual. E posso garantir que essa competição não se limitará apenas a metais, petróleo e gás, mas acima de tudo se concentrará em recursos humanos e inteligência. Quem assumirá a liderança dependerá não apenas do potencial econômico, mas principalmente da vontade de cada nação, de sua energia interna, que Lev Gumilev chamou de passionarnost.”
Essa era a primeira vez que Vladimir Putin usava essa estranha palavra em público6 CLOVER, Charles. Black Wind, White Snow: The Rise of Russia’s New Nationalism. New Haven: Yale University Press, 2016.. Mas ela apareceria em seus discursos, em outros momentos7 “What’s going on inside Putin’s mind? His own words give us a disturbing clue”. The Guardian. 25 de fevereiro de 2022.
“Eu acredito em passionarnost, na teoria de passionarnost… A Rússia não atingiu o seu pico. Estamos em marcha, na marcha do desenvolvimento… Temos um código genético infinito. Ele é baseado na mistura de sangue.”
“Daí a questão: se existimos há mais de mil anos, e estamos ativamente nos desenvolvendo e ficando mais fortes, isso significa que temos algo que está nos ajudando a fazer isso. Esse algo é nosso ‘reator nuclear’ interno, que nos impulsiona. Essa passionarnost, da qual Gumilev falou em seu próprio tempo, continua empurrando o nosso país para a frente.”8 “National open lesson Russia Focused on the Future”. Kremlin. 1 de setembro de 2017.
Diferentes pensadores ajudaram a moldar o pensamento político de Vladimir Putin, mas dá para dizer que Lev Gumilev, um dos nomes mais influentes de uma ideologia política conhecida como eurasianismo, ocupa uma posição privilegiada nessa lista.
Filho de dois dos poetas mais emblemáticos da Rússia – Nikolai Gumilev (executado pela polícia secreta soviética aos 35 anos) e Anna Akhmatova (indicada duas vezes ao Nobel) – Lev Gumilev foi um historiador e antropólogo russo, nascido na gélida São Petersburgo, em 1912, pioneiro de uma teoria do desenvolvimento étnico que ele chamava de etnogênese.
Inspirado pelo cientificismo do século 19, Gumilev acreditava que a humanidade está profundamente sujeita às leis da natureza, e que o homem, longe de ser o senhor do universo, é refém dos seus caprichos.

Todos nós aprendemos ainda em sala de aula que rios, montanhas, desertos e florestas não são apenas características físicas da natureza – são elementos que, ao longo do tempo, influenciam o curso das civilizações.
Montanhas como o Himalaia não servem apenas para inspirar poetas e fotógrafos amadores, também oferecem a função de obstáculos naturais, protegendo e dividindo populações. E quando assumem essa posição, funcionam como barreiras de terra e gelo, com capacidade de isolar comunidades inteiras e despertar novas línguas, tradições e culturas.
Rios como o Amazonas não nos proporcionam apenas peixes e rotas comerciais – também ajudam a desenhar fronteiras naturais, separando e conectando povos e exércitos.
Há inúmeros exemplos de como a geografia desempenha esse papel, mas Lev Gumilev foi além deles. Para o antropólogo, mesmo determinados impulsos externos da natureza (por exemplo, as oscilações nos níveis de radiação solar) podem influenciar o destino de algumas populações9 LARUELLE, Marlène. Russian Eurasianism: An Ideology of Empire. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2012..
Para Gumilev, este fenômeno natural, distribuído de forma heterogênea – a carga “biocósmica” que alcança a humanidade – induz cada população na Terra a adquirir uma energia vital própria. É aqui que entra a passionarnost.
Passionarnost, para Gumilev, é uma energia vital muito específica: a capacidade de uma população apaixonada por um propósito, perder o seu senso de autopreservação e se sacrificar por um bem maior; um senso de altruísmo em busca do sucesso, tão poderoso que é capaz de mudar os rumos da história.
Gumilev entendia a trajetória da espécie humana como um padrão cíclico, que se repete indefinidamente, de migrações, conquistas e genocídios. De tempos em tempos, hordas de nômades surgem, devastam reinos inteiros e então desaparecem como se nunca tivessem pisado na Terra. Mas para ele, os grandes vencedores da história não são movidos pelas suas riquezas ou aptidões militares – são guiados pela passionarnost.
A própria vida de Gumilev ajuda a entender a origem da sua teoria. O antropólogo passou a maior parte da juventude, de 1938 a 1956, em campos de trabalhos forçados, acusado de atividades contra-revolucionárias. Ele encontrou na Sibéria, condenado à barbárie do Gulag, testemunhando diariamente a morte, o medo e a humilhação, a encarnação desse ciclo selvagem de violência e sobrevivência.

Gumilev pensava que as etnias passam por períodos de criação, ascensão e, eventualmente, declínio, e que em certos momentos se fundem para formar superetnias. Como historiador, ele dedicou uma parcela importante da vida escrevendo sobre as tribos das estepes da Eurásia interior: os hunos, mongois, tártaros, turcos e citas – muitos dos quais sobreviveram à mesma Sibéria congelante que ele. Gumilev acreditava que esses grupos, ao se misturarem com os eslavos orientais – os russos, ucranianos e bielorrussos – deram forma a uma superetnia eurasiana.
A ideia de super-homens russos é bastante antiga – está presente no imaginário russo desde o nascimento da sua literatura mística, repleta de bruxas que recorrem às energias da floresta para realizar feitos sobre-humanos. Mas Gumilev contribuiu para dar um sentido pseudocientífico a essa tradição cultural. Para ele, o desenvolvimento histórico russo, graças à interferência do cosmos, é o resultado de uma civilização singular, eurasiana, imbuída de passionarnost, construída sobre a mistura de sangue de diferentes etnias.
É verdade que Gumilev não enxergava todas as etnias da mesma forma. No seu trabalho, ele costumava valorizar as relações dos russos com os nômades das estepes, e diminuir os seus vínculos com os europeus ocidentais. Gumilev também tinha o péssimo hábito de defender posições antissemitas, acusando os judeus de terem uma vocação natural para a conspiração10 TRIPOLSKY, Mikhail. ОБ ИЗВРАЩЕНИИ ИСТОРИИ: Хазарский каганат, евреи и судьба России. Новое Русское Слово. 9 de dezembro de 1994.. Mas o antropólogo nunca escondeu que parte do seu interesse pela história era motivado pelo desejo de prevenir conflitos étnicos. E a sua preocupação era perfeitamente justificável.
A Rússia é um dos países mais multiculturais do mundo, consequência da sua imensidão territorial inigualável. 1/9 de toda a área terrestre do planeta pertence à Rússia – a mesma área equivalente da superfície de Plutão. Quando o sol nasce no leste da Rússia, se põe no oeste.
A Rússia é aquilo que nós conhecemos como país transcontinental – faz parte de dois continentes: a Europa e a Ásia. Ela é tão extensa que a sua parte asiática é grande o suficiente para transformá-la no maior país da Ásia, e a sua parte europeia faz o mesmo na Europa.
77% do território russo está na Ásia, mas só 25% dos russos vivem nessa área. É na Ásia que se encontra parte importante das riquezas naturais da Rússia – como petróleo, gás e minério – mas é na Europa onde estão as construções russas mais emblemáticas, como o Kremlin e o Palácio de Inverno, a Catedral de São Basílio e o Hermitage.

Considerando os dois continentes, a Rússia faz fronteira com 14 nações e abriga mais de 190 grupos étnicos. O maior grupo é formado pelos próprios russos, mas há populações significativas de tártaros, ucranianos, bashkires, chuvashes, chechenos e armênios vivendo debaixo da autoridade do Kremlin. Cada um desses grupos tem a sua própria cultura e, em alguns casos, a própria língua (são 35 línguas oficiais no país, além do russo).
O Cristianismo Ortodoxo Russo é a religião dominante neste lugar, mas há também uma presença significativa de muçulmanos na Rússia (especialmente nas regiões do Cáucaso Norte e do Tartaristão), além de budistas (muitos deles na Buriácia) e pagãos (geralmente seguidores da fé nativa eslava).
Manter a integridade territorial de um país tão grande, conciliando os interesses de tantos grupos étnicos, nunca foi uma tarefa fácil para os líderes russos, e a geografia ajuda a tornar esse desafio ainda mais difícil.
A parte europeia da Rússia está situada numa região conhecida como Planície Europeia Oriental, uma vasta extensão de terras baixas que se estende da França até os Montes Urais. No passado distante, os primeiros eslavos que se estabeleceram na Rússia encontraram terra fértil para a agricultura, mas como essa é uma região sem grandes rios, montanhas e desertos, enfrentaram invasões desde os primeiros dias.

A natureza explica parte da razão por que os russos, e os seus vizinhos, brigam tanto uns com os outros. Ao longo da história, a Rússia sofreu diferentes tentativas de invasões – e não apenas dos mongois, tártaros e outros grupos nômades, no seu passado distante11 MARSHALL, Tim. Prisioneiros da Geografia: 10 mapas que explicam tudo o que você precisa saber sobre política global. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2018.. Os poloneses invadiram a Rússia em 1610; seguidos pelos suecos, em 1707; os franceses, sob o comando de Napoleão Bonaparte, em 1812; e os alemães – duas vezes, em ambas as guerras mundiais – em 1914 e 1941.
Ao mesmo tempo, nenhum país assume o maior território da Terra apenas se defendendo de ameaças externas. Por séculos, os czares, e depois os soviéticos, dedicaram um imenso esforço para expandir o território e a influência russa além das suas fronteiras – sempre com uma justificativa diferente.
Por exemplo: a expansão para a Sibéria foi motivada pela busca de peles de animais (especialmente a pele de zibelina). A expansão para a Ásia Central e o Cáucaso foi impulsionada pelo desejo de controlar rotas comerciais (como a Rota da Seda). A expansão para o Báltico fez parte da estratégia de Pedro, o Grande, para transformar a Rússia em uma potência naval. A expansão para o Extremo Oriente permitiu à Rússia acesso ao Oceano Pacífico, indispensável para o comércio e a projeção do poder naval russo.
Nos seus primeiros séculos, a Rússia possuía um território de 1,3 milhão de km². No auge da União Soviética, esse espaço chegou a atingir 22,4 milhões de km².
Ao longo da história, graças à vulnerabilidade da Planície Europeia Oriental, os russos também se empenharam em construir uma zona tampão entre o coração do seu território e as grandes potências europeias. Para os líderes russos, controlar as extensões de terra ao redor das suas fronteiras permite à Rússia uma profundidade estratégica, um colchão entre os potenciais invasores ocidentais e os centros de poder do país.
Por exemplo: entre a Polônia e a Rússia não há grandes barreiras geográficas naturais, como montanhas ou grandes rios. Essa ausência de obstáculos permitiu que a Rússia anexasse territórios da Polônia em 1772, 1793, 1795 e 1939 – nesse último caso, numa aliança militar dos soviéticos com a Alemanha nazista.
A União Soviética era composta por 15 repúblicas que, embora na teoria gozassem de certa autonomia, na prática estavam sob o controle rígido de Moscou. Dessas 15 repúblicas, além da própria Rússia, seis estavam no leste da Europa, ajudando a construir uma zona tampão: Ucrânia, Bielorrússia, Moldávia, Lituânia, Letônia e Estônia.
Mas a zona de influência russa não se limitava a esses países. Moscou também tinha os seus estados-satélites na Europa Oriental – Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia e Bulgária. Quando consideramos esses países, no auge da União Soviética, os russos exerciam controle e influência sobre um território de 23,3 milhões de km².
Vladimir Putin chama o colapso da União Soviética de uma “tragédia genuína” – “a maior catástrofe geopolítica do século vinte”12 Putin: Soviet collapse a ‘genuine tragedy’. NBC News. 25 de abril de 2005.. Hoje, tantos anos após o fim do bloco, o território russo ainda é grande o suficiente para colocar a Rússia no topo dos maiores países do planeta, com os seus 17 milhões de km² (quase o dobro do território do Canadá, o segundo maior país da Terra). Mas Putin diz que a queda da Cortina de Ferro foi “uma desintegração da Rússia histórica sob o nome de União Soviética”13 “Russia’s Putin laments Soviet collapse, says he moonlighted as taxi driver to earn money”. NBC News. 13 de dezembro de 2021.:
“Nós nos transformamos em um país completamente diferente. E o que foi construído ao longo de mil anos foi em grande parte perdido”.
Na visão de Putin, como consequência do colapso soviético, 25 milhões de russos, morando em países independentes, passaram a viver isolados da Rússia, experimentando “uma grande tragédia humanitária”14 Putin rues Soviet collapse as demise of ‘historical Russia’. Reuters. 12 de dezembro de 2021..
A União Soviética era um estado multinacional composto por diferentes línguas e etnias. Quando levamos em consideração os países que faziam parte dela, excluindo a Rússia e adicionando os estados-satélites de Moscou, conseguimos listar mais de 100 grupos étnicos ocupando esses territórios (como ciganos, moldavos, sorábios, judeus, curdos, assírios, uigures, tadjiques e letões). Nunca foi fácil conciliar os interesses de tantos grupos, e por muito tempo, diferentes repúblicas soviéticas experimentaram – lideradas por Moscou – episódios de repressão política, deportações em massa e crimes contra a humanidade. Na maior parte dessas repúblicas, quando a Cortina de Ferro caiu, a independência foi celebrada.
Os russos sempre foram maus vizinhos. Em diferentes momentos da história, tanto os czares quanto os soviéticos implementaram políticas de russificação no leste da Europa e na Ásia Central. Nesses episódios, o russo foi promovido como a língua dos instruídos e, em muitos lugares, o ensino do idioma local foi limitado, quando não completamente eliminado, tratado como estúpido, como se servisse apenas aos diálogos primitivos da vida simples na aldeia, distante da grandeza russa, berço de uma literatura imponente inquestionável.
Muitos líderes russos também se sentiram no direito de afastar minorias étnicas de suas terras. Por exemplo: durante o governo Stalin, a União Soviética implementou uma série de deportações em massa de grupos étnicos.
Quase 200 mil tártaros da Crimeia foram deportados por Stalin, principalmente para a Ásia Central. Muitos deles morreram no caminho.
Nos anos 1940, tropas soviéticas cercaram vilas e cidades inteiras na Chechênia e na Inguchétia. Centenas de milhares de pessoas foram carregadas à força em vagões de carga, deportadas para a Ásia Central, principalmente para o Cazaquistão e o Quirguistão. Muitas dessas vítimas também pereceram nessas viagens.
Nos anos 1930, 172 mil coreanos, que viviam no Extremo Oriente Russo, foram deportados para o Cazaquistão e o Uzbequistão.
Após a invasão da Polônia em 1939, mais de um milhão de poloneses foram levados para diferentes partes da União Soviética, incluindo a Sibéria.
Durante as décadas de 1950 e 1960, a União Soviética incentivou milhares de russos a se mudarem para o Cazaquistão para cultivar as terras do país. Isso alterou tanto a demografia desse lugar que, depois desse movimento, até os anos 1990, os cazaques ainda eram uma minoria no Cazaquistão. Os russos aplicaram a mesma estratégia quando a União Soviética anexou a Estônia e a Letônia.
Eventualmente, o expansionismo russo também criou bizarrices como o exclave de Kaliningrado.
Um enclave é um território que está completamente cercado pelo território de outro país (como Lesoto, dentro da África do Sul, ou San Marino, cercado pela Itália). Um exclave é uma parte do território de um país que está separada do resto do país pelo território de outro país. É o caso de Kaliningrado.
Por quase toda a sua história, Kaliningrado não pertenceu à Rússia. Na verdade, por longos 690 anos, desde a sua fundação, essa região se chamava Königsberg, em homenagem ao Rei Ottokar II da Boêmia.
Por sete séculos, Königsberg foi o lar de povos germanos. Esse território só foi transferido da Alemanha para a União Soviética após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando Moscou o tomou como compensação pelos custos humanos e materiais sofridos durante o conflito. Em 1946, Königsberg virou Kaliningrado em homenagem ao revolucionário bolchevique Mikhail Kalinin, e a população alemã que residia na cidade foi expulsa pelo Exército Vermelho para que a área fosse repovoada por russos.
Rússia, em azul
A princípio, Kaliningrado não chama atenção, com os seus pouco mais de 200 km² perdidos na vastidão do continente europeu. Mas não é sensato subestimar esse lugar: o oblast funciona como uma base militar estratégica para a Rússia, uma bomba-relógio no coração da Europa, cercada de inimigos da OTAN. E por estar no Mar Báltico, ainda permite que a Rússia exerça um poder naval numa região indispensável para a estabilidade europeia.
Essa região é tão tensa que há até quem chame o corredor que liga a Bielorrússia a Kaliningrado – conhecido como Corredor de Suwałki, na divisa da Polônia com a Lituânia – de “lugar mais perigoso do mundo”. Se essa faixa de terra cair no controle do exército russo, Estônia, Letônia e Lituânia estarão isoladas do restante da Europa.
Há bons motivos para esses países serem neuróticos com os russos. Mas no fim, nenhum deles é refém apenas da influência russa – e das imposições militares, ideológicas e econômicas que Moscou patrocina. Assim como os russos, eles também estão condenados pelas peculiaridades do hardware que ajuda a desenhar as relações políticas no mundo: a geografia.
Em 2012, pouca gente percebeu, mas a menção de Putin à passionarnost de Lev Gumilev era o anúncio de uma nova relação de Moscou com o mundo. Em seus primeiros anos à frente do Kremlin, a Rússia usufruía de uma posição relativamente estável junto à comunidade internacional.
Em 2001, Putin ofereceu ajuda à OTAN depois do 11 de setembro e declarou sua descrença de que a organização fosse hostil15 Putin Is Right: Russia Belongs in NATO. The Atlantic. 1 de agosto de 2001.. Em 2002, o Kremlin virou parceiro júnior da OTAN16 Russia signs historic Nato accord. The Guardian. 28 de maio de 2002.. Em 2003, Rússia e União Europeia assinaram um acordo para fortalecer as suas relações econômicas, comerciais e políticas17 The 12th Russia-European Union summit was held in the capital of Italy, the current President of the EU. Kremlin. 6 de novembro de 2003.. Em 2004, Putin se manifestou a favor do ingresso da Ucrânia na União Europeia18 Russia takes a negative view of NATO expansion but has always seen the European Union’s enlargement as a positive process. Kremlin. 10 de dezembro de 2004.. Em 2008, Putin foi o convidado de honra de uma reunião de cúpula da OTAN19 Putin, at NATO Meeting, Curbs Combative Rhetoric. The New York Times. 5 de abril de 2008..
Mas em 2012, tudo mudou.
Com os protestos devorando as ruas de Moscou, Vladimir passou a adotar uma nova identidade política. Ele implementaria, nos meses seguintes, uma repressão brutal à oposição e adicionaria novas expressões aos seus discursos, presentes até aquele momento apenas no repertório de um punhado de ideólogos à sombra do poder.
No lugar do pragmatismo com o mundo externo, Putin se converteria num líder ufanista defensor das virtudes do sacrifício, algo que ele associava a um excepcionalismo russo. O chefe do Kremlin passaria a sustentar que, diferente do Ocidente – cansado e hedonista, perdido na busca pelo conforto material – o homem russo age, acima de tudo, motivado por um princípio moral superior, tão resistente que está preparado para morrer por isso (segundo ele, para os russos, “até a morte é bonita”20 Two Europes Confront Each Other Over the Glory, or Shame, of War. The New York Times. 7 de maio de 2022.). É aqui que entra a passionarnost.
Esse nacionalismo eufórico, com o tempo, não demoraria a virar conspiracionismo neurótico. Putin chegou a defender que a passionarnost russa era motivo de “grande interesse” dos ocidentais21 Meeting of Council for Civil Society and Human Rights. Kremlin. 30 de outubro de 2017.:
“Você sabia que material biológico é coletado por todo o país, de diferentes grupos étnicos e pessoas que vivem em diferentes localizações geográficas da Rússia? Mas para quê? Eles fazem isso propositadamente e de forma profissional. Somos um objeto de grande interesse.”
A procura do presidente russo por essa nova identidade política não foi uma jornada racional honesta e solitária, mas uma busca oportunista por uma ideologia capaz de servir como a fundação intelectual de um novo império: a retomada de um paraíso eurasiano sonhado, perdido na decadência soviética, submerso no inconsciente coletivo de uma população ressentida com a derrota na Guerra Fria, mas orgulhosa da sua resistência fora do comum ao sofrimento.
Essa nova identidade viraria objeto de interesse público porque o eurasianismo dispõe, ao mesmo tempo, do poder de mobilizar o nacionalismo e o de unir as diferentes etnias do país, justificando a reconstrução do Império Russo.
Abraçado a essa identidade política, Putin mudaria de status: ele deixaria de ser o presidente da nação com o maior território da Terra para virar o líder de uma civilização que abriga milhões de pessoas vivendo além do maior território da Terra.
Em 2022, em nome dessa missão, ele chegou a se comparar com Pedro, o Grande22 Putin compares himself to Peter the Great in quest to take back Russian lands. The Guardian. 10 de junho de 2022:
“Pedro, o Grande, travou a grande guerra do norte por 21 anos. Parece que ele estava em guerra com a Suécia, ele tirou algo deles. Ele não tirou nada deles, ele devolveu [o que era da Rússia].”
“Aparentemente, também é nossa sina devolver [o que é da Rússia] e fortalecer [o país]. E se partirmos do fato de que esses valores básicos formam a base da nossa existência, certamente teremos sucesso em resolver as tarefas que enfrentamos.”
Na jornada de Vladimir Putin em direção à reconstrução do Império Russo, Lev Gumilev não seria a única inspiração. Há diferentes cardeais intelectuais influenciando as posições do líder russo. Um dos mais importantes atende pelo nome de Ivan Ilyin.
Ilyin nasceu numa família aristocrática moscovita, em 1883, mas produziu quase toda sua obra na Alemanha, onde passou a maior parte da vida adulta em exílio, após sua deportação em 1922 pelos bolcheviques, ao lado de outros 160 filósofos, historiadores e economistas, conhecidos como “russos brancos”. Escrevendo a partir de Berlim, professava pelo nacionalismo russo e a ortodoxia cristã, e acreditava que a Rússia tinha reservado um papel especial no mundo.
Assim como muitos dos seus colegas desterrados, Ilyin enxergava o eurasianismo como a pricipal alternativa ao marxismo-leninismo – embora, em 1933, no artigo “Nacional Socialismo: ‘Um Novo Espírito’”, também tenha saudado o nazifascismo por interromper “o processo de bolchevização na Alemanha” e prestar “o maior serviço a toda a Europa”23 ILYN, Ivan. Nacional Socialismo. Um Novo Espírito. 17 de maio de 1933..
Anticomunista convicto, Ilyin acreditava que o marxismo tinha sido imposto à Rússia, inocente, pelo Ocidente, perverso.

Como escreve o historiador americano Timothy Snyder24 SNYDER, Timothy. Na contramão da liberdade: A guinada autoritária nas democracias contemporâneas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.:
“O que Ilyin enxergava era um corpo russo virginal. Como os fascistas e outros autoritários de sua época, insistia em afirmar que seu país era uma criatura, ‘um organismo da natureza e da alma’, um animal no Éden sem o pecado original. Não cabia ao indivíduo decidir quem pertencia ao organismo russo, uma vez que não são as células que decidem que pertencem a um corpo. A cultura russa, escreveu o autor, produzia automaticamente ‘união fraterna’ para onde quer que o poderio nacional se estendesse.”
“Quando Deus criou o mundo, a Rússia de alguma forma escapou da história, permanecendo na eternidade. A terra natal de Ilyin, segundo ele, estava portanto livre do fluxo do avanço do tempo e da combinação acumulada de acasos e escolhas que lhe parecia tão intolerável. A Rússia, em vez disso, viveu repetidos ciclos de ameaça e defesa. Tudo o que acontecia só podia ser um ataque do mundo exterior contra a inocência russa, ou uma resposta justificada da nação a essa ameaça.”
Ilyin previa o colapso da União Soviética e acreditava que, após esse episódio, a Rússia seria reconstruída sob a liderança de um homem forte, “suficientemente másculo”, capaz de guiar a civilização russa e redescobrir a sua identidade.
As suas visões autoritárias estavam enraizadas na sua convicção de que a Rússia tinha uma missão espiritual única no mundo, que só poderia ser cumprida sob uma liderança centralizada e moralmente elevada.
Ilyin também acreditava que a Igreja Ortodoxa Russa era a expressão de uma superioridade civilizatória – não apenas teológica – que deveria assumir o papel, após o fim inevitável da experência soviética, da condução da salvação da espécie humana (a começar pelos estados eslavos). Ele descrevia a Rússia como uma nação semelhante a Cristo, que de tempos em tempo sobrevive a ciclos de autossacrifício, morte e ressurreição.
No seu ensaio “O que o desmembramento da Rússia acarreta para o mundo”, publicado em 1950, Ilyin não apenas previu a queda da União Soviética, como escreveu instruções sobre o que fazer para salvar a Rússia dos males do mundo ocidental25 ILYN, Ivan. O que o desmembramento da Rússia promete ao mundo?. 30 de junho de 1950.:
“Conversando com estrangeiros sobre a Rússia, todo verdadeiro patriota russo deve esclarecer que a Rússia não é uma aglomeração aleatória de territórios e tribos, nem um ‘mecanismo’ artificialmente organizado de ‘regiões’, mas sim um ORGANISMO vivo, historicamente desenvolvido e culturalmente justificado, que não está sujeito a uma divisão arbitrária. Este organismo é uma unidade geográfica, cujas partes estão ligadas por uma interdependência econômica; este organismo é uma unidade espiritual, linguística e cultural, que historicamente uniu o povo russo com seus irmãos mais jovens nacionais através de uma interdependência espiritual; ele é uma unidade estatal e estratégica, que provou ao mundo sua vontade e capacidade de autodefesa; ele é um verdadeiro baluarte da paz e equilíbrio euro-asiático e, portanto, universal. Sua divisão seria uma aventura política sem precedentes na história, cujas consequências desastrosas a humanidade sofreria por muito tempo.”
Ivan Ilyin não teve a oportunidade de testemunhar a queda da União Soviética. Ele morreu esquecido na Suíça, em 1954, e só seria redescoberto pelos russos décadas mais tarde, exatamente quando Moscou estava em busca de um manual de instruções sobre como reconstruir o país após o fim da experiência soviética.
Nesse momento, foi o cineasta Nikita Mikhalkov quem ajudou a propagar as suas ideias na Rússia. Foi Mikhalkov quem sugeriu transferir os seus restos mortais da Suíça para o Mosteiro Donskoy, em Moscou. Putin atendeu prontamente ao pedido e ainda encontrou uma maneira de devolver ao país os documentos pessoais de Ilyin, engavetados na Michigan State University, nos Estados Unidos26 Michigan State University returning papers of late dissident Russian philosopher Ivan Il’in. Michigan State University. 19 de maio de 2006. Quando pediram a ele para citar o nome de um historiador, o líder russo não titubeou em lembrar de Ilyin27 SNYDER, Timothy. Na contramão da liberdade: A guinada autoritária nas democracias contemporâneas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019..
Num estalar de dedos, Ivan Ilyin saiu do quase anonimato para se transformar num expoente do pensamento político russo contemporâneo. Em 2014, todos os burocratas de alto escalão e funcionários dos governos locais da Rússia receberam uma cópia de uma coleção póstuma com os seus artigos mais importantes28 WEISSKOPF, Ramon. Die vorkommunistische Philosophie von Iwan A. Iljin und ihr Einfluss auf Wladimir Putin: Ein Plädoyer für die Beachtung der philosophischen Schriften zum besseren Verständnis der aktuellen Politik Russlands. München: GRIN Verlag, 2017.. Bibliotecas e instituições acadêmicas também passaram a incluir os seus trabalhos nos currículos e programas de estudo. Em 2023, a Universidade Estatal Russa de Humanidades abriu a Escola Superior de Política Ivan Ilyin, dirigida por um certo Aleksandr Dugin29 Kremlin refuses to join debate over research center named for Hitler-sympathizing philosopher whom Putin has called one of his favorites. Meduza. 18 de abril de 2024.. Vladimir Putin também reverenciou Ilyin em diferentes oportunidades. Em 2022, quando assinou os tratados de adesão de quatro províncias ucranianas ocupadas, encerrou o seu discurso apoteótico apelando para o ideólogo30 Подписание договоров о принятии ДНР, ЛНР, Запорожской и Херсонской областей в состав России. Kremlin. 30 de setembro de 2022.:
“Quero terminar o meu discurso com as palavras de um verdadeiro patriota – Ivan Alexandrovich Ilyin: ‘Se considero a Rússia minha Pátria, então isso significa que amo em russo, contemplo e penso, canto e falo russo; que acredito na força espiritual do povo russo. Seu espírito é meu espírito; seu destino é meu destino; seu sofrimento é minha tristeza; seu florescimento é minha alegria’.”
“Por trás dessas palavras está uma grande escolha espiritual, que por mais de mil anos de estado russo foi seguida por muitas gerações de nossos ancestrais. Hoje estamos fazendo essa escolha, os cidadãos das Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk, os moradores das regiões de Zaporizhzhya e Kherson fizeram essa escolha. Eles fizeram a escolha de estar com seu povo, de estar com a Pátria, de viver seu destino, de vencer junto com ela. Atrás de nós está a verdade, atrás de nós está a Rússia!”
Em anos recentes, o eurasianismo passou a receber atenção da imprensa ocidental quase sempre a partir do trabalho de um ideólogo e polemista russo chamado Aleksandr Dugin, pai da Quarta Teoria Política.
Nascido em 1962, em Moscou, numa família soviética de alto escalão, filho de uma médica com um general da inteligência militar russa, Dugin iniciou a sua trajetória no cenário político russo no final dos anos 1980, quando se associou a grupos ultranacionalistas e antissemitas que faziam oposição à perestroika de Mikhail Gorbachev (como o Pamyat). Nós voltaremos a essa história no capítulo 3.

A obra mais conhecida de Dugin é o livro Fundamentos da Geopolítica, publicado em 1997. O trabalho foi recebido com entusiasmo pelas elites militares da Rússia e chegou a ser usado como livro-texto na Academia do Estado-Maior General das Forças Armadas do país.
O fio condutor de Fundamentos da Geopolítica é a ideia de que a Guerra Fria não foi um confronto entre o comunismo e o capitalismo, mas apenas mais um episódio de um conflito permanente entre duas realidades geográficas: a Eurásia – a maior potência terrestre da Terra – e o seu arqui-inimigo natural – o poder marítimo Atlântico, representado pela Grã-Bretanha e os Estados Unidos.
Fundamentos da Geopolítica explora as ideias do geógrafo britânico Halford John Mackinder, um dos fundadores da geopolítica moderna. Conhecido pelo artigo “O pivô geográfico da história”, apresentado à Royal Geographical Society em 1904, Mackinder é o pai de uma teoria conhecida como Heartland.
O britânico propôs uma divisão estratégica da superfície da Terra em três grandes regiões geopolíticas:
A Ilha-Mundo: composta pelos continentes da Europa, da Ásia e da África; a região com a maior massa terrestre do planeta, a maior população e o melhor acesso aos recursos naturais do mundo.
As Ilhas Marginais: as ilhas e arquipélagos adjacentes à Ilha-Mundo, como o Japão.
As Ilhas Distantes: os continentes e ilhas fora da massa terrestre da Ilha-Mundo, como a América, a Austrália e a Nova Zelândia.
Para Mackinder, o pivô geográfico da história era o Heartland. O Heartland fica no centro da Ilha-Mundo. Segundo ele, quem governa a Europa Oriental comanda o Heartland; quem governa o Heartland comanda a Ilha-Mundo; quem governa a Ilha-Mundo comanda o mundo.

Mackinder via a história como uma luta entre as potências terrestres e marítimas. Ele acreditava que a consolidação do poder no Heartland poderia desafiar a hegemonia das potências marítimas (como a Grã-Bretanha e, mais tarde, os Estados Unidos). Essa é a razão por que, já em 1904, ele argumentava que era a Rússia, e não a Alemanha, a principal oponente estratégica da Grã-Bretanha.
Em Fundamentos da Geopolítica, Dugin expandiu a compreensão de Mackinder de que a Eurásia ocupa uma posição central no controle do planeta. Desde então, ele defende a formação de um bloco eurasiático liderado pela Rússia para enfrentar as potências marítimas.
Para ele, “o Ocidente é o lugar onde Lúcifer caiu. É o centro do polvo capitalista global. É a matriz da perversão e da perversidade cultural, da fraude e do cinismo, da violência e da hipocrisia”.
Em Fundamentos da Geopolítica, Dugin propõe uma série de estratégias para a Rússia, centradas em desestabilizar as potências marítimas e as suas alianças. Os Estados Unidos são o alvo principal:
“É necessário se opor à geopolítica atlântica dos Estados Unidos a todos os níveis e em todas as regiões da terra, tentando enfraquecer, desmoralizar, enganar e, em última análise, derrotar o inimigo. Neste caso, é especialmente importante trazer a desordem geopolítica para a realidade americana, encorajando todo o tipo de separatismo, conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes de grupos extremistas, racistas e sectários, desestabilizando os processos políticos internos nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, faz sentido apoiar tendências isolacionistas na política americana, as teses daqueles círculos (muitas vezes republicanos de direita) que acreditam que os Estados Unidos deveriam limitar-se aos seus problemas internos.”
Fundamentos da Geopolítica surgiu da confraternização de Dugin com pensadores da Nova Direita europeia e as suas aparições na Academia do Estado-Maior General, sob os auspícios do General Igor Rodionov, futuro ministro da Defesa da Rússia31 The Unlikely Origins of Russia’s Manifest Destiny. Foreign Policy. 27 de julho de 2016.. Na obra, Dugin não se concentra no uso de tanques e aviões de combate para reconstruir o Império Russo. No lugar disso, defende um programa bastante sofisticado de subversão, desestabilização e desinformação liderado pelos serviços russos de inteligência.
Há um intenso debate sobre o grau de influência de Aleksandr Dugin sobre Vladimir Putin. Há mais de uma década ele é chamado de “Rasputin de Putin” e até de “cérebro de Putin”. Dugin não ocupa nenhum cargo formal no Kremlin – embora seja convidado para participar de reuniões de Estado – e faz pouco caso da sua influência:
“Não é como se eu fosse o conselheiro de Putin, que estou ditando a ele e Putin está sob a influência dessas ideias. Estamos simplesmente agindo de acordo com a lógica da história russa e as leis da geopolítica. Ou seja, Putin e eu, e Washington e Berlim, estamos todos sendo influenciados pelas leis da história, pelas leis da política e, em certa medida, pelas leis do comportamento das elites.”
O fato é que parte importante da estratégia russa ressoa com o pensamento de Aleksandr Dugin.
Em seu apogeu, o Império Russo foi construído através da conquista e a anexação de territórios.
Hoje, quando nós classificamos as nações com base no poder de fogo disponível, a Rússia só fica atrás dos Estados Unidos32 2025 Military Strength Ranking. Global Firepower. Dos seus países vizinhos na Europa e na Ásia Central, a Ucrânia é a que aparece em melhores condições. Mas a Rússia tem mais militares ativos que a soma dos países que dividem sua fronteira ocidental e um orçamento de defesa consideravelmente maior33 Os países considerados são: Ucrânia, Geórgia, Moldávia, Bielorrússia, Estônia, Letônia, Lituânia, Armênia, Azerbaijão, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Turquemenistão, Uzbequistão e Sérvia..
Muitos dos países vizinhos da Rússia se protegem da influência de Moscou aderindo à União Europeia e à Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN.
A União Europeia é uma das mais ambiciosas e bem-sucedidas alianças políticas e econômicas da história moderna, um bloco de nações que promove valores antagônicos aos da Rússia. A adesão à União Europeia oferece vantagens econômicas inegáveis e acesso ao mercado comum europeu (incluindo a livre circulação de bens, serviços, capital e pessoas, em seus 27 países membros). Esse acesso ajuda a fortalecer as economias dos países do leste da Europa e a reduzir a dependência deles de Moscou.
Quase todos os países da União Europia fazem parte da OTAN. Os países-membros da OTAN têm uma força militar ativa somada, e um orçamento de defesa combinado, significativamente maiores que os da Rússia.
Não é difícil entender por que a desintegração da OTAN e da União Europeia está no topo da prioriedade russa. Se essas duas instituições não existissem, os países do leste europeu estariam consideravelmente mais vulneráveis às pressões econômicas, diplomáticas, culturais e militares de Moscou, e com o tempo, poderiam se tornar estados fantoches do Kremlin, seguindo as diretrizes de Moscou na política interna e externa, como no período soviético.
É claro que se a União Europeia e a OTAN se desintegrassem, os países europeus buscariam construir novos blocos políticos, econômicos e militares. Mas a criação desses blocos demandaria um esforço monumental de diplomacia. A Europa tem milhares de anos de guerras e rivalidades. Alcançar o cenário atual, onde 27 países fazem parte de uma mesma organização, exigiu literalmente décadas de negociações. A formação de novos blocos poderia facilmente reacender disputas muito antigas, além de encorajar a ação de movimentos separatistas.
O impacto de um hipotético fim da União Europeia e da OTAN representaria o fim do que nós conhecemos como “ordem internacional liberal” – os tratados, alianças, acordos e instituições criados sob a liderança dos Estados Unidos e os seus aliados em um esforço para proteger os valores políticos e econômicos do Ocidente.
Países da União Europeia, em azul
Os ganhos que a União Europeia produz são indiscutíveis.
Uma pesquisa de opinião de 2023 mostrou que 2/3 dos britânicos acreditam que o Brexit piorou a economia do país34 The impact of Brexit on the UK economy: Reviewing the evidence. Centre for Economic Policy Research. 7 de julho de 2023. – e eles tinham razão. Um estudo publicado em 2023 indicou que nos primeiros três anos após o período de transição, o PIB real do Reino Unido ficou até 3% inferior graças ao Brexit, em comparação com um cenário em que o Reino Unido tivesse permanecido na União Europeia. Isto corresponde a uma perda de rendimento per capita de aproximadamente £ 850. As estimativas indicam que o impacto negativo do Brexit atingirá até 6% do PIB (£ 2.300 per capita) do Reino Unido em 203535 Revisiting the effect of Brexit. National Institute of Economic and Social Research. 26 de novembro de 2023.. Mas há estudos com projeções ainda mais pessimistas.
Um relatório publicado pelo Goldman Sachs em 2024 indicou que a economia do Reino Unido ficou 5% pior nos seus primeiros anos pós-Brexit36 KUNIO, Seth. The Economic Impact of Brexit. globalEDGE. 13 de fevereiro de 2024.. Outro estudo publicado pela Cambridge Econometrics em 2024, concluiu que a economia do Reino Unido ficou quase £ 140 bilhões menor, nos seus primeiros anos, por causa do Brexit. Em 2023, havia quase dois milhões de empregos a menos no Reino Unido motivados pela saída do bloco europeu. O relatório chegou à conclusão que o britânico médio estava quase £ 2 mil mais pobre em 2023, enquanto o londrino médio estava quase £ 3.400 pior, como resultado do Brexit37 New report reveals UK economy is almost £140billion smaller because of Brexit. Cambridge Econometrics. 11 de janeiro de 2024.
Há evidências robustas para sustentar que a adesão à União Europeia resulta em aumentos significativos no PIB per capita e na produtividade de um país. Um estudo publicado em 2014 indicou que a renda per capita europeia seria, em média, 12% menor naquele momento se o bloco não existisse38 CAMPOS, Nauro F.; CORICELLI, Fabrizio; MORETTI, Luigi. Economic Growth and Political Integration: Estimating the Benefits from Membership in the European Union Using the Synthetic Counterfactuals Method. IZA Discussion Paper No. 8162. Bonn: Institute of Labor Economics (IZA). Abril de 2014..
Na média, 79% das pessoas que vivem nos países que aderiram à União Europeia em 2004 (Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Eslováquia, Eslovênia, Hungria, República Tcheca, Malta e Chipre) acreditam que o seu país ganhou benefícios ao aderir ao bloco. A pesquisa foi feita em 202439 20 years together. European Commission. 2024.
A impressão está correta. Os países da Europa Central e Oriental que aderiram à União Europeia em 2004, experimentaram um crescimento econômico mais rápido graças à adesão40 RAPACKI, Ryszard; PROCHNIAK, Mariusz. EU Membership and Economic Growth: Empirical Evidence for the CEE Countries. European Journal of Comparative Economics, v. 16, n. 1, p. 3–40, 2019.. Em duas décadas, os salários triplicaram para os trabalhadores poloneses, tchecos e eslovacos, enquanto aumentaram entre quatro a seis vezes na Hungria e nos países bálticos41 ‘Big Bang’ EU countries risk losing competitive edge. Financial Times. 30 de abril de 2024.
Os dez países que aderiram à União Europeia em 2004 – quase todos vizinhos da Rússia – duplicaram o seu PIB per capita nos primeiros 15 anos de adesão ao bloco europeu. Em 2019, o PIB per capita deles era 32% maior do que em 2004. Metade deste crescimento aconteceu graças à União Europeia42 The EU miracle: When 75 million reached high income. Centre for Economic Policy Research. 6 de junho de 2024.. A adesão também diminuiu a desigualdade deles para os demais países do bloco. Em 2004, o PIB per capita médio desses países era equivalente a 52% do PIB per capita médio dos países da União Europeia. Hoje é de 80%43 EU accession has boosted growth among its new members. Le Monde. 18 de maio de 2024..
Um estudo publicado em 2024 pelo Polish Economic Institute mostrou que, em 20 anos, os indicadores que medem a qualidade de vida aumentaram significativamente em todos esses países44 KOPIŃSKI, Dominik; LUBASIŃSKI, Jędrzej; MICHALSKI, Bartosz; PILSZYK, Marcelina; ŚWIĘCICKI, Ignacy; WĄSIŃSKI, Marek. The Big Bang Enlargement: 20 Years of Central Europe’s Membership in the EU. Varsóvia: Polish Economic Institute. Abril de 2024.. Outro estudo, de 2019, indicou que, nos países da Europa Oriental, houve uma correlação positiva entre a adesão à União Europeia e uma melhora na qualidade da educação45 BERGBAUER, Annika B. How did EU membership of Eastern Europe affect student achievement? Education Economics, v. 27, n. 6, p. 624–644. 3 de outubro de 2019..
E ainda há a segurança. Os países-membros da União Europeia vivem juntos em paz há 80 anos. Essa é uma anomalia conhecida como Longa Paz. No decorrer da história europeia, a guerra foi a regra, não a exceção. Entre 1500 e 1945, a Europa experimentou mais de 200 conflitos armados significativos, com poucos períodos intercalados de paz. Se nós considerarmos os últimos dois mil anos, não há registro de um período tão pacífico quanto o atual. Essa longa ausência de guerras está umbilicalmente ligada ao modelo de integração promovido pela União Europeia. A conquista é tão simbólica que a União Europeia ganhou um Nobel da Paz em 2012.
Sob qualquer ângulo, a União Europeia e a OTAN têm as maiores forças de dissuasão para impedir a influência russa no continente europeu. O Kremlin reage a esse escudo político-militar apostando em ferramentas de subversão, desestabilização e desinformação para enfraquecer e, eventualmente, dissolver as duas organizações.
Nos últimos anos, Putin tem trabalhado arduamente para restaurar a influência russa nas suas antigas esferas de controle, utilizando inteligência militar para reconstruir o Império Russo. Putin apresenta o seu país como uma fortaleza cercada por inimigos e traidores, e defende a perpetuação de um governo implacável na proteção dos interesses do que ele chama de Mundo Russo – que inclui todas as regiões e comunidades onde a cultura e a língua russa têm uma presença importante – em especial: Ucrânia, Bielorrússia, Estônia, Letônia, Moldávia (particularmente a região separatista da Transnístria) e a Geórgia (com as suas regiões separatistas de Abecásia e Ossétia do Sul). Mas as ambições imperialistas da Rússia não se limitam a esses territórios.
Este livro dedicará as próximas páginas analisando como os russos estão construindo esse cenário, e como contam com o apoio das forças políticas mais reacionárias do Ocidente para alcançar esse objetivo.


